05 dezembro 2016

Ousei participar de um Festival de Contação de Histórias em Goiás.
Mandei um vídeo e minha interpretação foi classificada entre os finalistas.
Meu prêmio foi conseguir decorar um texto e dizê-lo em público.
Eu me diverti e fiquei orgulhoso por perder para uma interpretação para o Apólogo, um conto do Machado de Assis.
Eis o conto:



A velha e o fogo

A velha ateava fogo em alguns papéis. Numa das mãos, um jornal servindo de tocha e na outra um galho para cutucar a papelada. Foi só no que reparei.
Não. Eu reparei que ela usava umas roupas estranhas, algo como um vestido sobre outro. Talvez um vestido sobre uma camisola. Usava uma touca artesanal, de crochê claro. Não pude ver o rosto. As mãos eram bem alvas, assim como os tornozelos acima das meias brancas que calçavam um par de sandálias de dedo.
            Passei por ela e segui o meu caminho. Para mim, foi apenas uma figura esquisita em roupas azuis desbotadas queimando pertences num local afastado, um atalho entre o meu prédio e a larga avenida.
            Quando entrei no Eixão, o sol esquentou e revi mentalmente aquela senhora incendiária. Prestei atenção na figura e passei a divagar.
            Primeiro, sorri com ternura imaginando que a meiga anciã devia estar enviando mensagens para o céu com a fumaça. Julguei que seriam poemas saudosos, escritos com letrinhas tremidas, após a dolorosa separação quando o marido partiu em viagem para o infinito. Imaginei recordações em longas cartas lembrando o nascimento dos três filhos, a alegria da viagem ao Rio de Janeiro, quando juntos rezaram ao pé do Cristo no alto da cidade. Imaginei a frágil senhora enviando aos céus a receita das empadinhas de palmito, favoritas do finado, para que algum anjo cozinheiro lhe recordasse as delícias terrenas. Fantasiei procurando captar o sonho da paixão de um jubileu dourado.
            Quase fui atropelado por uma bicicleta que vinha em sentido contrário. O susto acordou-me dos devaneios e levou-me a refletir que os papéis queimados poderiam ter sido escritos pelo saudoso marido. Quem sabe agora, às vésperas de mudança de endereço, quisesse evitar que os filhos soubessem como o casal se amara com volúpia, ao contrário da inocência dos filhos, que sempre julgaram ter pais pudicos por terem praticado sexo apenas nas três únicas vezes em que geraram os três únicos filhos. Ninguém mais acredita em Papai Noel, mas os filhos sempre acreditam em pais castos, puros e assexuados.
            Naquele momento também ri. Ri de mim, por acreditar em Papai Noel e em sinceras declarações apaixonadas. A mulher devia estar apagando o passado de fogo ardente. Isso faria muito mais sentido. Passei a imaginar confissões de lascívia e luxúria de um amor adolescente. Não, isto não justificaria sair de casa num domingo de manhã, para atear fogo nas relíquias, longe dos olhos da família. A velhinha, pensei, deve querer ocultar, para sempre, pecados mais fortes. Decerto, cartas do amante. Manuscritos que revelavam promessas, desejos e realizações. Linhas anunciando palavras ditas sob as cobertas. Ali estaria o envelope com o nome e endereço completo do amante. Ali estaria uma fotografia do casal adúltero, numa tarde de outono. A família e a sociedade jamais poderiam saber daqueles poentes escaldantes. Ali, no meio da fogueira, estaria a carta com a surpresa e alegria do amante ao saber que seria pai.
            A cada passo que eu avançava a velhinha rejuvenescia nos meus pensamentos. Ficava mais bonita, sensual e atraente.
            Agora, idosa e dependente, às vésperas de mudar para a casa do filho bastardo, todos os seus pertences ficariam expostos. Inclusive a verdade, guardada na caixa de papelão rosa. O receio da rejeição e o temor de ser enviada para um asilo a faziam queimar o passado.
            Durante uma hora e meia caminhei pensando na velhinha e nos seus doces ou picantes segredos matrimoniais. Quando saí do Eixão, a curiosidade era tão grande que resolvi verificar se sobrara alguma coisa legível naquelas cinzas.
Durante uma hora e meia caminhei pensando na velhinha e nos seus doces ou picantes segredos matrimoniais. Quando saí do Eixão, a curiosidade era tão grande que resolvi verificar se sobrara alguma coisa legível naquelas cinzas.
— Foi aí que o senhor, seu delegado, apareceu e me flagrou com aquele crânio fumegante nas mãos.

29 novembro 2016

Nome do personagem

Estou orgulhoso com a ótima aceitação do Manual do escritor.
Recebo inúmeras encomendas do Brasil afora.


2.6.1  Nome do personagem
Os nomes dos personagens são tão importantes nos livros que às vezes pulam das páginas para a capa: Dom Casmurro, Lolita, Cinderela, Iracema, Hamlet, Ulysses.
Para os pais é difícil escolher um nome para o filho. O autor vivencia responsabilidade semelhante.
Ao nomear um personagem você o está credenciando.

► Você batiza o personagem com o intuito de representar suas características ou de reforçá-las.

Considere a sonoridade do nome, a individualidade do personagem. Evite nomes semelhantes no mesmo enredo (Os inúmeros Aurelianos Buendía de Cem anos de solidão confundiram a minha leitura!). Perceba que apelidos derivativos e contrações facilitam a vida do escritor ao esquivar-se de repeti-lo.
Na vida real jamais soube de alguém chamado Caim. Certamente nenhum pai quis atribuir a fama de assassino a um filho. Na escrita, Clara nunca será negra. Jesus é contraditório para um assassino. Apelido de bandido será sem diminutivo. Fritz não será índio, nem japonês.
Há vários com simbologia marcante: Inocêncio (inocência), Júnior (filho), Joana D’Arc (mártir), Cornélio (traído), Florêncio (afeminado), Modesto (modesto) , Ítalo (italiano), Moisés (profeta, libertador). Nem sempre as cargas são óbvias ou perceptivas. Cuidado para não utilizar um nome “gasto” com simbolismos diferentes daqueles do seu personagem.

No conto Pai contra mãe de Machado de Assis há quatro personagens:
Tia Mônica – derivativo de mono, mulher solitária;
Cândido Neves – ironia e brancura;
Clara – uma mulher branca;
Arminda – a que tem armas.

Em Vidas Secas de Graciliano Ramos há muita desgraça. Tanta desgraça que os personagens reagem como bichos. Exceto o cachorro, Baleia, que tem caráter humano. Conforme Câmara Cascudo, era comum que os cachorros fossem batizados, por superstição, com nomes de peixes – Tubarão, Piranha, Cação, Toninha – intencionando afastar a raiva, ou hidrofobia se preferir (peixe não tem medo de água).
Fabiano é o chefe da família dos retirantes. Dele há apenas a descrição modesta de ter barba ruiva e castigada pelo sol, mãos grossas e calejadas, pés duros, mostrando assim um tipo exemplar castigado pela rudeza do sertão. A característica de Fabiano é realçada pela falta de sobrenome. Como um “cabra” que sequer tem nome de família. Curiosamente Fabiano destoa no sertão. Graciliano sabia das coisas. O Dicionário Aurélio sugere sinônimos possíveis da palavra fabiano: indivíduo inofensivo e pobre-diabo.
Sinhá Vitória, a mulher de Fabiano, sonha apenas ter uma cama de varas; sofre, mas não esmorece, justificativa para o nome.
Os filhos, tão desprezíveis pelo sofrimento, tão bichos selvagens, sequer têm nomes.
Em Dona Flor e seus dois maridos, de Jorge Amado, as escolhas também são exemplares: Dona Flor, flor de pessoa, feminina e cheirosa. O primeiro marido, o malandro e vadio, só poderia ser Vadinho. O segundo marido, recatado, pacífico e respeitado farmacêutico, é o Dr. Teodoro Madureira, sugerindo religiosidade (téo) e maturidade.
Branca de Neve sugestiona inocência. Na história hollywoodiana os anões ganharam predicados do bem. No original eram sete anões como também eram sete os pecados capitais. Soneca (preguiça), o tímido Dengoso (luxúria), Feliz (gula), Atchim (avareza), Mestre (soberba), Zangado (ira) e o mudo e imberbe Dunga que invejava a fala e a barba dos outros anões.

Quadrilha – Carlos Drummond de Andrade – poema
João amava Teresa que amava Raimundo
que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili
que não amava ninguém.
João foi para os Estados Unidos, Teresa para o convento,
Raimundo morreu de desastre, Maria ficou para tia,
Joaquim suicidou-se e Lili casou com J. Pinto Fernandes
que não tinha entrado na história.

Observe os nomes e a relação entre eles. Leia de novo. São comuns como gente comum. Apenas J. Pinto Fernandes não tem prenome, porém dois sobrenomes, um deles evocando virilidade, por isso conquistou e casou-se. E por ter nome diferente é que não havia entrado na história.
       
A escolha, preferencialmente, deve guardar uma relação com as características dos personagens, identificação por região, etnia, profissão ou o que o autor inventar:
Sertanejos: Severino, Capistrano, Zé da Caatinga, Maria da Zefa;
Judeus: Abrão, Ester, Raquel, Moisés, Jacó, Sara;
Interplanetários: Zagt Lobxdyp, Mestre Jedi Ikrit, Spock e o irmão Sybok;
Burgueses brasileiros: Albuquerque do Porto, Junqueira do Nascimento e Silva – com sobrenomes duplos ou triplos unidos por elementos de ligação;
Índios brasileiros e norte-americanos: Acauã, Guaraci, Janaína, Pena Branca, Touro Sentado, Pequeno Lobo;
Franceses: Pierre, Jean-Marie, François, Nicole, Olivier;
Bíblicos: Sansão, Dalila, Abel, Adão, Eva, Madalena;
Marcas físicas: Cicatriz, Japa, Cabeção, Ferrugem, Loiruda.

Faça do nome uma escolha inteligente.


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28 novembro 2016


Liturgia do fim

Marília Arnaud

Editora Alaúde – selo Tordesilhas
R$ 30,00
250 páginas

Há quem goste de rabada com agrião. Há quem considere buchada de bode um prato dos deuses.  Aos vegetarianos a picanha mal passada é um sacrilégio. Para outros, o camarão ao alho e óleo causa urticária. Cada comensal tem seu próprio paladar. Assim, posso dizer que este livro não é um bife com arroz, ovo e batatas fritas. Não é um prato para o dia a dia, não é um prato comum e de gosto consensual.
É para quem gosta de comida com muito condimento. E a cozinheira, digo autora, salpica poesia em todas as páginas, parágrafos, linhas.  Em alguns lugares, para o meu paladar, parece que a tampa do vidro da especiaria caiu e exagerou o sabor.  “Costumávamos fazer longos passeios pela praia, afundando na areia dourada os pés descalços, lambidos de espuma, sentindo na pele a calidez do sol, escutando o estrugi monótono do quebrar das ondas.”.
Em resumo trata-se de história onde Inácio é expulso da casa da fazenda pelo pai. Ele se forma em Letras, se casa com Ieda, tem uma filha Isabel, mas, introvertido, jamais consegue lidar com as pessoas à sua volta. Está ensimesmado com o passado na fazenda Perdição. O motivo da expulsão não fica claro para o leitor. Tampouco está totalmente resolvido para o protagonista. A história, mistura de recordações e fluxos de pensamentos, avança lentamente. A cada dez passos para frente, voltam-se nove passos. São muitas as pistas fornecidas para conhecermos a motivação para o desentendimento. Marília Arnaud nos conduz com maestria e só nas últimas páginas revela todo o segredo. A originalidade do final é estarrecedora. Vale todo o sacrifício de uma leitura floreada de vais e voltas.
Ao falar do protagonista, Inácio Boaventura, a linguagem parece-me muito feminina, não me convence para um narrador masculino, mesmo que escritor e poeta de profissão. Ao lirismo acrescentou dezenas de adjetivos e advérbios.
“Rasgou-me o peito súbita vontade de chorar, por mamãe e Ifigênia, por todas as coisas que tinham deixado de ver, o brilho das manhãs, as ondas verdes nas encostas, o voo nupcial da rainhas ao entardecer,  o debrum alaranjado do sol se pondo atrás das serras, a imensidão das noites enluaradas, por tudo o que não mais podiam sentir, o vento no rosto, o perfume das catleias, o calor do sangue a lhe correr nas veias, pelo que tinham deixado de ser e no que se transformariam, pedaços de carnes devorados pelos vermes, húmus a nutrir o solo.”.
“Confinado atrás de muros intransponíveis de raiva e impotência, eu ousava me comparar a eles, na medida em que o fogo secreto, a sarça ardente que os iluminava e aquecia era a mesma que me esbraseava a raiz mais funda da vida, ali onde principiava a angústia da carne, onde latejava o mistério da alma, alma minha, de onde me fora arrancada uma fatia significante – é verdade que nos acostumamos com qualquer coisa, com qualquer situação, por mais dura, mais aflitiva ou humilhante que seja, e na noite mais espessa acabamos por enxergar pontos luminosos.”.
Entretanto, Marília Arnaud é espetacular em algumas descrições, como quando apresenta o cenário de Joaquim Boaventura, o pai de Inácio.
 “Sobre o centro, o tabuleiro de gamão e a Bíblia aberta nos salmos. Pendurado num armador de rede, um macacão de apicultor. E a cadeira de balanço de papai, trono de um rei sombrio, soberano de um país perdido nas brenhas de uma serra, senhor de todas as coisas existentes em derredor e a partir de si, a casa e as pessoas que a habitavam, a terra e a água, as pedras e as árvores, o animais e as lavouras, as flores e as abelhas, e ainda o silêncio e a palavra, a última palavra.”.
Depois de um parágrafo como esse. Precisamos aplaudir.
E assim, com alguns açúcares na receita, vamos digerindo a narrativa.
Marília Arnaud, a cozinheira, sem que percebêssemos, acrescentou folhas de erva-santa ao prato. A erva-santa ou erva-do-bicho confere sabor amargo. Primeiro algumas poucas folhas esmigalhadas. E, por fim, quando já estávamos familiarizados com o paladar, imaginando o café sem açúcar, ela se utilizou de várias folhas da erva, causando um desfecho surpreendente onde, passados alguns dias ainda sentimos o gosto amargo.

Se eu recomendo? Sim se você for poeta ou gosta muito de literatura. Caso contrário, tente entender a história, pule algumas páginas e se surpreenda com o desfecho.

09 novembro 2016



Roberto Klotz lança 'Manual do escritor', com dicas para aprimorar escrita
A obra tem texto leve e fluido. Veja, abaixo, algumas ferramentas divulgadas pelo escritor
postado em 09/112016 07:00

Isabella de Andrade – Especial para o Correio



 
"A técnica não serviria de nada para a pessoa sem talento, mas aumenta o alcance de quem a possui" Roberto Klotz, escritor.





Com um texto leve, fluido e bem-humorado, Roberto Klotz escreveu seu sexto livro, o Manual do escritor, para compartilhar suas experiências literárias com novos escritores. Ao longo das páginas, o leitor encontra, além de dicas e ferramentas para melhorar cada vez mais sua escrita, alguns caminhos que podem facilitar a publicação do tão desejado primeiro livro.

A ideia básica é de que pequenas mudanças fazem diferença entre autores bem-sucedidos e que a técnica de nada serviria sem talento, sendo apenas um meio para potencializar o alcance de quem o possui. A leitura de seu manual é convidativa e promete sinalizar caminhos importantes para o bom uso das palavras. Em cada rodapé das páginas, o leitor encontra um pensamento ou curiosidade sobre a escrita, ditos por uma grande variedade de autores através do tempo.
Em seus títulos anteriores o humor se mostra como uma de suas características recorrentes. Roberto Klotz já lançou Pepino e farofa(crônicas), Quase pisei! (crônicas), Cara de crachá (conto), A bruxinha que queria ser fada (infantil), O monstro da caixa azul (infantil) e afirma que escrever ficção é algo que vem da vontade humana em imaginar outras vidas, outros personagens, transformando as ideias em histórias. “Conhecer as regras é fundamental. Entender os processos e as técnicas, mesmo sem usá-las, abre oportunidades. Entretanto, cada autor institui suas próprias normas de criação.” Klotz disponibilizou tudo o que conhece e que considera mais importante para um escritor, não apenas técnicas literárias: os profissionais necessários à publicação, editores, mercado editorial, autopublicação, marketing, vendas.

O autor brasiliense nunca havia escrito um conto ou crônica até 2003, quando resolveu entrar no mundo da escrita. Desde então, Klotz considerava que era preciso ter uma base sólida e conhecimento literário. Ele iniciou os estudos específicos e começou a arquivar aquilo que considerava mais importante para o crescimento pessoal na escrita, além de ler o maior número possível de clássicos e participar de oficinas literárias. “Quando me dei conta, havia escrito apostilas para ministrar palestras e oficinas. Precisei elaborar uma cartilha e, quando percebi, tinha redigido um manual com mais de 200 páginas”, conta.
Possibilidades

O ponto mais importante de qualquer obra literária, de acordo com o autor, seria o ser humano, o desenvolvimento do personagem. Existem inúmeras possibilidades para criar personagens: características físicas, personalidade, meio social, ambiente geográfico, época, sendo ele sempre rico em possibilidades. Klotz dá a dica para a criação de bons seres literários: “Ao criar um personagem imagine que ele tenha um segredo.  O diretor da escola esconde que foi mau aluno; a gerente de supermercado suprimiu do currículo a condenação por furto; o marido sublima a atração pela cunhada... Estas serão as fraquezas dos personagens. Personagem forte é o que tem qualidades e defeitos”.

O autor destaca que o aprendizado e o conhecimento da escrita não engessarão os modelos de criação, e sim, pode oferecer ferramentas para somar e aprimorar estilos de escrita já presentes. “Existem academias para aprimorar os dançarinos, conservatórios para ensinar as técnicas aos músicos, escolas de belas artes para desenvolver a pintura dos artistas plásticos. Assim é com a escrita: pode e deve ser aprimorada com a técnica”, afirma.
Fique de olho 

·         A pesquisa evita que escrevamos bobagens.
·         O personagem precisa ter motivação. Objetivos provocam conflitos e conflitos movem a narrativa.
·         Todos os personagens têm vulnerabilidades.
·         Credenciar é habilitar o personagem antes do conflito em que alguma característica seja importante.
·         Na literatura pode-se mentir; é proibido falsificar. Parte do trabalho do escritor é tornar plausível o que não é razoável.
·         Conflito é a questão que motiva a narrativa.
·         A palavra certa é meio caminho para transmitir o subtexto.
·         Tenha meta e prazo.
·         Vários autores, por descuido na revisão, em vez de orgulho, passaram a ter vergonha dos próprios livros após a publicação.

Trecho

Você precisa dar o primeiro passo, mas com um plano para chegar ao destino. Escrever é como entrar numa guerra. Exige estratégia, planejamento e arsenal. Saiba as táticas. Camufle a estratégia. Conheça o cenário da luta. Tenha inúmeras armas literárias. Estude antes de entrar na luta: descubra como são e como pensam os protagonistas e os antagonistas. E, principalmente, saiba com profundidade qual é o motivo da guerra, digo, do conflito entre os personagens. Na vida e na escrita, “quando se ignora para onde ir, qualquer caminho serve”. Então, quanto mais detalhar a história, melhor poderá visualizá-la e realizá-la.

SERVIÇO

Manual do escritor
Lançamento do livro, hoje, no Carpe Diem da 104 Sul, a partir das 18h30. O livro estará à venda por R$ 40 e as vendas seguem, após o lançamento, apenas diretamente com o autor. Para adquirir o livro basta entrar em contato: r-klotz@uol.com.br.

01 novembro 2016

Lançamento do Manual do escritor

Mais uma amostra do MANUAL DO ESCRITOR


5.1 Abertura

As regras da escrita foram estabelecidas para facilitar a vida do leitor assim como as regras do trânsito foram desenvolvidas para evitar o caos nas ruas.
Esqueça as literatices. Crie parágrafos e recue os inícios de parágrafos.
                            
As primeiras linhas devem seduzir. Deve-se criar um clima emocional logo no início da narrativa. Evite incluir informações que sobrecarreguem. Provoque a curiosidade através de emoções como assombro, desejo, repulsa, ódio, coragem, alegria, medo, vergonha, raiva, felicidade, orgulho, inveja. Crie uma tensão.

Metamorfose – Franz Kafka – novela
Certa manhã, ao despertar de sonhos intranquilos, Gregor Samsa encontrou-se em sua cama metamorfoseado num inseto monstruoso.
O tcheco revolucionou ao abrir a história com uma proposta fantástica. Criou um paradigma assustador e precisou convencer os leitores da sua verossimilhança.

Vidas secas – Graciliano Ramos – romance
Na planície avermelhada os juazeiros alargavam duas manchas verdes. Os infelizes tinham caminhado o dia inteiro, estavam cansados e famintos. Ordinariamente andavam pouco, mas como haviam repousado bastante na areia do rio seco, a viagem progredira bem três léguas. Fazia horas que procuravam uma sombra. A folhagem dos juazeiros apareceu longe, através dos galhos da catinga rala.
Com palavras áridas, Graciliano mostrou a falta de perspectivas da família. A grande meta a ser atingida é a modesta sombra de um juazeiro.

O estrangeiro – Albert Camus romance
O pensamento hesitante sobre a data da morte materna leva-nos a questionar o amor pela mãe e a perguntar, secretamente, por que não deveria amar a mãe.

O túnel – Ernesto Sábato – romance
Bastará dizer que sou Juan Pablo Castel, o pintor que matou a María Iribarne; suponho que o processo está na lembrança de todos e que não se precisam maiores explicações sobre minha pessoa.
Dificilmente as pessoas assumem os erros, quanto mais um assassinato. Neste caso, a provocação é que todos conhecem a causa menos o leitor.

A humilhação – Philip Roth – romance
Ele perdera a magia. O impulso se esgotara. Ele nunca havia fracassado no teatro, tudo o que fizera sempre fora vigoroso e bem-sucedido, e então aconteceu esta coisa terrível: ele não conseguia representar. Subir ao palco tornou-se uma agonia. Em vez da certeza de que teria um desempenho maravilhoso, sabia que ia fracassar. A coisa aconteceu três vezes seguidas, e na última vez ninguém mostrou interesse, ninguém foi. Ele não conseguia se comunicar com a plateia. Seu talento havia morrido.
O romancista norte-americano comparou a instalação do fracasso de um ator à instalação do desastre sexual masculino. Ao comparar potencializou a situação desesperadora.

Cem anos de solidão – Gabriel García Márquez – romance
Muitos anos depois, diante do pelotão de fuzilamento, o Coronel Aureliano Buendía havia de recordar aquela tarde remota em que seu pai o levou para conhecer o gelo. Macondo era então uma aldeia com vinte casas de pau a pique e telhados de sapé construídos na beira do rio de águas diáfanas que se precipitavam por um leito de pedras polidas, brancas e enormes como ovos pré-históricos. O mundo era tão recente que muitas coisas careciam de nome, e para mencioná-las era preciso apontar com o dedo.
A morte sempre é chocante. Ainda mais se sabemos a hora em que ela vai ocorrer. No exato momento do fim, procura recordar tudo o que aconteceu com as gerações dos Buendía desde os tempos da era do gelo, numa espetacular antítese.

Ana Karênina – Leon Tolstói – romance
Todas as famílias felizes se parecem entre si; as infelizes são infelizes cada uma à sua maneira.
O questionamento é imediato: porque infelizes?

Nota do editor: Você se lembra do alerta: “É desastroso autores forçarem situações para expor o resultado de toda a pesquisa realizada.”?
— Aqui há exemplos demais!


Mais uma amostra do MANUAL DO ESCRITOR
Lançamento dia 09 de novembro – quarta-feira – no Carpe Diem da Asa Sul.

Livros só com o autor.     r-klotz@uol.com.br

31 outubro 2016

O céu de Lima
Juan Gómez Bárcena 

Alfaguara

246 páginas

R$ 40,00


Escrever uma crítica literária é desagradável quando o livro desagrada. Neste caso, com O céu de Lima foi prazeroso opinar.
Em 1904, dois sonhadores poetas peruanos que idolatram um poeta espanhol – Juan Ramón Jiménez, cujo mais recente livro não está disponível no país. Acham que se escrevessem uma carta ao autor para solicitar um exemplar não seriam atendidos, então resolvem criar uma personagem, Georgina Hübner, para seduzir o espanhol e, aí sim, encomendar o livro.  Recebem o livro, festejam e contam vantagem entre os amigos também admiradores do europeu. Em vez de se darem por satisfeitos, resolvem dar continuidade à sedução com o objetivo de conseguir um poema dedicado à personagem inventada.
Logo de cara eu amei a faísca que impulsionou o autor a escrever. Depois, confirmei que o mote que originou a história é verdadeiro e Juan Ramón Jiménez veio a ganhar o Nobel de literatura em 1956.
Juan Gómez Bárcena nos conduz por uma história riquíssima, repleta de surpresas, expectativas e realismo.
Além de desenvolver a história, revela deliciosamente a personalidade, modo de vida e entrelaçamento dos diversos personagens
Em resumo, José Gálvez Barrenechea, de família ilustre, é bastante objetivo para conseguir o almejado poema, enquanto Carlos Rodríguez, filho de empresário que venceu ao explorar índios nos seringais, redige com letra feminina as cartas desenvolvidas em conjunto e praticamente incorpora Georgina na tentativa de sedução.
O conjunto de cartas, estimulado por um escriba de cartas, se transforma também  para a redação de um romance.
                O narrador relata a sua versão ambientada cem anos atrás.  É uma história de vida, de amor, de relacionamentos e de literatura. De literatura porque insere dezenas de informações para produzir um romance.
Construção de personagem: para seduzir, o escriba de cartas sugere que “o que se mostra pela metade sempre sugere mais do que o que se mostra por completo.” E completa: “porque mostrar-se demais é tão pouco sedutor como não se mostrar em absoluto.” E hilário informa que para se fingir de mulher “basta acrescentar uns quantos ‘não sei’, ‘acho que ‘, e ‘tenho a impressão’, porque as mulheres hesitam muito. E reticências também; todas que puder. E depois a questão da caligrafia: mais complicada do que parece. Mas fora isso... sabe qual é o segredo? Imaginar-se uma mulher que você amou. E como todos os homens somos parecidos, é de esperar que o sujeito a quem escrevemos compartilhe a nossa maneira de ver as coisas...”
Algumas páginas depois põe em prática a sugestão.
“Georgina é a mesma prostituta polaca outra vez.
A prostituta polaca se ainda fosse virgem seis anos depois.
A prostituta polaca se não fosse prostituta nem polaca; se em vez de ter nascido na Galícia e ter sido vendida por vinte copeques, tivesse nascido numa mansão de Miraflores e recebido presentes de quatrocentos dólares em sua festa de debutante.”
Páginas adiante, vale conferir, mostra como seria Georgina na imaginação de José.
Ainda fornece a receita estrutural que “nas páginas centrais de todo romance deve acontecer algo extraordinário.”.
Faltando vinte páginas ensina que: “o final precisa de um efeito dramático, porque os melhores romances de amor terminam em tragédia.”.
Mas o autor faz muito melhor do que recomenda. Surpreende com um final imprevisto.
É certo que o meu olhar de escritor observa atentamente as técnicas do escritor, mas muito mais do que isso, quem se manifesta em aplausos é o meu sentimento de leitor.


11 outubro 2016

Turista

Vai escrever um conto, uma crônica? Um romance?

Nem pense que acrescentando tchê, uai ou meu rei às falas transforma os personagens em gaúchos, mineiros ou baianos. Tampouco situando-os numa roda de chimarrão, na arquibancada do Mineirão ou comendo acarajé na porta da igreja de Nosso Senhor do Bonfim realizará o milagre da transformação.
Pesquise para convencer o leitor.
Se o personagem é surfista, entre na onda.
Se é malandro, suba o morro.
Se é velho, pegue um bonde e visite-o no asilo.
Da mesma forma, estude e entre no cenário onde ocorre a história. Sinta sede no sertão árido, coloque um quipá para rezar numa sinagoga, apavore-se numa cela do terceiro distrito.
De preferência escreva sobre o que está ao seu redor, aquilo que você conhece, pensa ou vive. Sobretudo a respeito daquilo que lhe importa.
Grandes autores não foram turistas, nem precisaram viajar. Guimarães Rosa estava em casa no sertão mineiro. Franz Kafka nem precisou transformar-se para falar de assédio moral. Camus era estrangeiro na própria pele.
Neste Manual do escritor precisei pesquisar, entrevistar e ler muito para me aproximar da verdade, se é que ela existe.

Neste mês de outubro, lançarei o Manual do Escritor. Revisão feita. Está na mão do diagramador. Pense em alguém orgulhoso do trabalho.
 
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