28 março 2017

Apito do trem


Há gente que se debruça na janela e observa a grama crescer. Antigamente era assim comigo e eu nem percebia.

Da minha janela sempre pude me ver.

Em um dia de chuva, brinquei com os meus irmãos no playground. A tia da escola desenhou comigo a primeira letra do meu nome. O professor escreveu em inglês no quadro negro. No cinema, ganhei um beijo de língua. Colei na prova de cálculo de estruturas metálicas. Emoldurei a foto da a primeira casa que construí.

Um dia abri a janela e a aliança refletiu o sol. Contra a luz vi a ecografia com uma criancinha minúscula. Pisquei os olhos e vi um sorriso banguela. Esfreguei os olhos para enxergar direito e Carolina estava embarcando para Disney com as colegas debutantes. Carol estava grávida quando nos despedimos do meu pai no cemitério.

Fiquei surpreso ao constatar que os postes, as árvores, as casas e as pessoas passavam mais rápidos pela janela.

Acima da vidraça sempre havia uma cordinha para avisar ao motorista quando a gente queria descer. Nem sei se quero descer. Não há cordinha, nem ônibus, nem motorista, nem maquinista neste trem.

Pouco importa, se curva ou reta, sol ou chuva, a velocidade aumenta.

Da janela foi possível enxergar o médico receitando um comprimido diário de atorvastatina para combater o colesterol. Depois outras cápsulas para o diabetes e pressão alta. Antes uma cápsula, agora três. O reumatismo acena...

Ouço o apito.


Pela janela, confirmo que o vidro de remédios se esvazia na velocidade do trem.

21 março 2017

Antologia


Sentado num barzinho, fui fulminado com uma pergunta.

— Ó, Klotz, o que é antologia?

Mundo, mundo, vasto mundo, se eu me chamasse Raimundo não faria essa pergunta. Se eu fosse o Raimundo que amava Maria que amava Joaquim, eu também não saberia a resposta. O meu nome é Klotz, não tenho outro de pia.

Se eu estivesse na repartição seria normal esse tipo de pergunta. Estou longe de qualquer dicionário, porque hoje é sábado. Essa Rosa radioativa estúpida e inválida não deveria ter feito esse questionamento.

Perdido, sem lenço e sem documento, nada no bolso ou nas mãos, procuro uma resposta. Desejei me esconder, desejei ir para Minas. Minas não há mais. Quis morrer no mar, mas o mar secou. Vou-me embora pra Pasárgada, sou amigo do rei. Volto para a minha terra que tem palmeiras onde canta o sabiá, que tem cadeiras onde posso sentar e procurar um desmancha-dúvidas.

Meu reino por um dicionário!

Deus, ó Deus, onde estás que não respondes? Preciso urgente de um pai dos burros.

Queixo-me da Rosa, mas a Rosa não fala, simplesmente perguntou o que é antologia.

Para todas as coisas: dicionário. Para que fiquem prontas: paciência. Rosa não tem paciência. Quer resposta. Tem uma pedra no meio do caminho! Cadê o maldito tira-teimas?

Toda pedra no caminho você pode retirar. De repente, não mais que de repente, surge o salvador, senta-se ao meu lado e consulto-o.

Coleção ou seleção de trechos em prosa e/ou em verso.”

— Obrigado, Aurélio!

Aurélio, garoto esperto, informa também que intertextualidade é a superposição de um texto a outro.

Mais uma vez, obrigado, Aurélio!

                                                                      Publicado em “Cara de crachá”

Pesquisa para o texto Antologia
“Mundo, mundo, vasto mundo. Se eu me chamasse Raimundo seria uma rima, não seria uma solução.” — O gauche — Carlos Drummond de Andrade
João que amava Tereza, que amava Raimundo, que amava Maria, que amava Joaquim, que amava Lili.” — Quadrilha — Carlos Drummond de Andrade
“O meu nome é Severino. Não tenho outro de pia.” — Morte e vida severina — João Cabral de Melo Neto
Porque hoje é sábado.” — O dia da criação — Vinícius de Moraes
“A rosa hereditária. A rosa radioativa estúpida e inválida.” — A rosa de Hiroshima — Vinícius de Moraes
Sem lenço e sem documento, nada no bolso ou nas mãos.” — Alegria, alegria — Caetano Veloso
“Quer morrer no mar, mas o mar secou; quer ir para Minas, Minas não há mais.” — E agora, José? — Carlos Drummond de Andrade
“Vou-me embora pra Pasárgada, sou amigo do rei.” — Vou-me embora pra Pasárgada — Manuel Bandeira
Minha terra tem palmeiras, onde canta o sabiá, as aves que aqui gorjeiam, não gorjeiam como .” — Canção do exílio — Gonçalves Dias
Meu reino por um cavalo!” — exclamou Ricardo III na Guerra das Duas Rosas, conforme William Shakespeare
Deus, ó Deus, onde estás que não respondes?” — Vozes d'África — Castro Alves
“Queixo-me às rosas, mas que bobagem, as rosas não falam, simplesmente as rosas exalam o perfume que roubam de ti, ai.” — As rosas não falamCartola
"Para todas as coisas: dicionário. Para que fiquem prontas: paciência." — Diariamente — Nando Reis
“No meio do caminho tinha uma pedra, tinha uma pedra no meio do caminho.” — No meio do caminho — Carlos Drummond de Andrade
Toda pedra no caminho você pode retirar.” — É preciso saber viver — Roberto Carlos e Erasmo Carlos
“De repente, não mais que de repente, fez-se de triste o que se fez amante.” — Soneto da separação — Vinícius de Moraes

“Se você rouba de um autor, é plágio, se de vários, é pesquisa.” — Wilson Mizner

07 março 2017

Crônica da mitologia


— Por favor, Eustáquio. Conte-me tudo sobre o Francisco Duarte.

— Ele, o Chico, dizia trabalhar no jornal havia sete anos. Que graças ao ótimo desempenho como estagiário conseguira, logo de cara, um lugar na editoria de política. Cobrira vários ministérios: Trabalho, Transportes, Fazenda e especialmente o da Justiça. Por conhecimento jurídico passara a acompanhar o trabalho do Supremo Tribunal Federal, o que lhe rendera dois prêmios internacionais de jornalismo. Estava sendo sondado para trabalhar na Globo News.

Eustáquio, sentindo-se desconfortável, tomou um gole de água.

— Da noite para o dia puxaram-lhe o tapete. Estava arrasado. Dizia que suas matérias transformaram-se em papel higiênico. Alegava que o novo editor-chefe, o Azedo, um sujeito ranzinza, não fora com a cara dele. Dizia que o editor alucinava dizendo que ele tivera um caso com a mulher dele. Aí ele completava: — Bobagem, aquele bagulho não merecia.

— Teve um caso ou não teve?

— Nem sei se a conhecia. Eu só jogava bola com ele e tomava umas cervejas. Sei que ele reclamava que o editor fazia questão de ser chamado, apenas por ele, de doutor Azevedo. Que o perseguia sem dó nem piedade. Até mudou-lhe as atribuições. O Chico sentia-se um lixo.

— Continue, por favor.

— Não posso confirmar, mas dizia que passou a ser responsável pelo obituário, por atualizar a programação de cinema, verificar a temperatura do café e eventualmente escrever alguma matéria onde o Azedo procurava diminui-lo.

— É mesmo?

— Disse-me que anteontem, o chefe, em clima carnavalesco, ordenara que escrevesse sobre a festa em Nova Orleans. Queria uma crônica. O chefe jamais justificava, mas Chico sabia que o cronista faltara. Ficara felicíssimo. Era a oportunidade de viajar e esquecer a marcação cerrada do editor.

— Acabou aí?

— Não. Chico perguntou se pegava as passagens com dona Neide e o doutor teria respondido “Vai viajar no Google, meu camaradinha! E aí, o Chico fazendo uma cara de nojo imitou o doutor Azevedo:

— Nada de florear com as comidinhas, a arquitetura ou a música — finalizou com um sorriso sádico — ah, e antes que eu me esqueça, sabichão, quero que inclua a mitologia grega na crônica.

— O Chico, quase chorava, reclamando do assédio moral, mesmo assim falou que não daria o braço a torcer. Pesquisou loucamente. Descobriu que o sambódromo deles acontece na Avenida Clair Borne e que no Mardi Gras, ou Terça Gorda, sempre há um desfile contínuo de carros alegóricos com música altíssima. Que de cima dos carros distribuem ou jogam milhares de beads - colares de bolinhas plásticas brilhantes. Sempre verdes, amarelas ou roxas, simbolizando fé, poder e justiça. E que a graça, além da bebedeira, estava em encher o pescoço de colares coloridos. Quanto mais colares mais poder. Mas para receber colares havia uma contrapartida, as mulheres precisam levantar a blusa e mostrar os seios ao carro alegórico.


O Eustáquio levantou a camisa cinco centímetros.

— Aí, o Chico disse-me que foi interrompido com um telefonema do doutor: “A matéria deverá estar pronto até as dezoito horas se não quiser perder a cabeça”.

Eustáquio gesticulou com o indicador cortando o pescoço da esquerda para a direita.

— O meu amigo era um baita profissional. Alucinadamente pesquisou deuses e deusas: Poseidon, Zeus e Dionísio, Afrodite, Medusa e Pandora. Resolveu criar uma crônica carnavalesca silenciosa. Incendiou o teclado com fúria e entregou o texto a tempo de salvar o pescoço.

Fez uma pausa. Abaixou a cabeça.

— Não adiantou, né. Foi morto com um tiro no coração.

— O senhor, leu a crônica?

— Não por quê?

— O seu amigo escreveu que Atena era a deusa da festa. Era a que tinha mais colares.

— E daí, inspetor?

— Daí que Atena é o nome da esposa do doutor Azevedo.

28 fevereiro 2017

Credenciamento

Capítulo do Manual do escritor




2.7 Credenciamento
Significa dar créditos, valores ou poderes ao personagem para que suas ações sejam coerentes com as consequências.
Por exemplo, se ele for policial e acertar um tiro improvável, é necessário informar ao leitor que ele treina tiro sistematicamente ou que é sortudo por natureza. Outro exemplo: para o chefe explodir de raiva no departamento deve ser mostrado em cena anterior que ele se descontrola facilmente.

Credenciar é habilitar o personagem
antes do conflito em que alguma
característica seja importante.

O credenciamento pode ser sutil como a descrição de um cenário.
Se desejamos mostrar o sonho de um jovem romântico em conhecer a Áustria, podemos qualificá-lo ao penduramos um pôster amarelado retratando um castelo no topo da montanha. O amarelado indicará o desejo antigo.
Credencie com recortes da vida do personagem.
 Mostre o jovem alugando filmes que se passam na Áustria. Revele quanto deposita na caderneta de poupança. Conte como estuda o mapa austríaco ao som de valsas.
O credenciamento é diferente da caracterização.
Na caracterização se apresentam informações sobre as personagens como aparência, idade, gênero, profissão, posição social, motivações. Esses elementos permitem melhor concepção e desenvolvimento, tornando-os mais realistas e complexos.

Entre os jovens está na moda criar mangás, histórias em quadrinhos de origem japonesa. Neles, o poder elemental é um clássico absoluto. É gerado a partir dos elementos como água, fogo, terra, ar e derivados como a luz, a treva, a eletricidade, o gelo. A partir dessas forças, o herói ou o vilão – devidamente credenciado – poderá emanar rajadas de energia extremamente poderosas.
Observe um credenciamento:

O capote – Nicolau Gógol – conto
No departamento ninguém lhe prestava o menor respeito. Os guardas, além de não se levantarem quando ele passava, nem chegavam a lhe dirigir o olhar, como se fosse uma simples mosca que voava pela sala de recepção. Os superiores o tratavam com uma frieza despótica. Qualquer subchefezinho da repartição colocava-lhe a papelada sob o nariz sem sequer dar-se ao luxo de dizer: "Copie", ou “Eis um trabalhinho interessante, bom" ou algo agradável, como se faz entre funcionários bem educados. E ele ia recebendo, olhando apenas o papel, sem procurar ver quem lhe entregara e se tinha obrigação de fazê-lo. Recebia e no mesmo instante começava a escrever. Os funcionários jovens zombavam e gracejavam dele o quanto permitia o humor de chancelaria, contavam mesmo em sua presença toda sorte de histórias que envolviam a sua pessoa: a sua senhoria, uma velha de setenta anos; diziam que a velha lhe batia, perguntavam quando os dois iam casar-se, faziam-lhe chover sobre a cabeça bolinhas de papel e diziam que era neve. Mas Akaki Akakiévitch não respondia uma palavra, como se não houvesse ninguém diante dele: em meio a todas essas amolações não cometia um só erro no seu trabalho. Só mesmo quando a brincadeira passava do limite, quando alguém lhe empurrava o braço, perturbando-o no trabalho, é que ele falava: "Deixem-me em paz. Por que me magoam?"
Akaki Akakiévitch é um subordinado, submisso, alvo de zombaria, desrespeitado, pessoa de rotina e sem ambição. Tipicamente um personagem plano. Para ressaltar a qualidade imutável, empregou mesmo três vezes num único parágrafo.

Casamento em crise – Roberto Klotz – conto
Ela, Ana Maria, se diz dona-de-casa, mas os invejosos chamam de dondoca. Diariamente dorme até às nove horas para depois cuidar do corpo. Joga tênis duas vezes por semana e faz musculação na academia nos outros três dias. À tarde tem uma rotina árdua. Às segundas vai ao supermercado, às terças e quintas joga pife, às quartas tem aula de pintura e às sextas-feiras vai à massagista antes do cabeleireiro. Aos sábados, enquanto o marido joga golfe, visita lojas de moda e calçados. Desde pequena foi acostumada ao conforto pelo pai, dono da transportadora.
Contrariando a fala da protagonista, confirmou-se a maledicência mostrando o dia a dia dela.

           Também credenciamos cenários e objetos. Um vale entre as montanhas pode ser fértil e propício para a vida ou pode ser um lugar sombrio que engole exploradores. Uma corda pode enforcar ou içar baldes d’água de um poço para salvar vidas.
Personagens, cenários, objetos, tudo pode ser credenciado para melhor desempenho da função na história

20 fevereiro 2017

Encontro com o autor


ROBERTO KLOTZ



Ele vai falar de seu processo de criação, estilo e influências.
Conquistou mais de 30 prêmios literários, foi jurado de vários concursos literários e promove oficinas literárias. Publicou contos e crônicas em Pepino e FarofaQuase pisei! e Cara de crachá. Divertiu crianças com os infantis A bruxinha que queria ser fada e o Monstro na caixa azul. Mostrou o trabalho de oficineiro em Manual do escritor.

O autor convidado vai falar sobre sua obra, influências e interesses. Haverá a interpretação de textos curtos. Depois a plateia poderá dirigir perguntas ao autor. Após o evento será servido um breve lanche, quando os convidados poderão interagir diretamente com o autor.
23 de fevereiro de 2017, quinta-feira, às 17h.
Salão de Leitura da Biblioteca da Câmara dos Deputados - Anexo II
Informações: 3215-8093
Entrada franca
Promoção do Centro Cultural da Câmara dos Deputados e
Centro de Documentação e Informação
Confirme sua presença em   nucleodeliteratura@camara.leg.br


14 fevereiro 2017

Operação Valquíria

Em 2007, escrevi como teria sido o dia do oficial alemão na véspera do famoso atentado em que ele colocou uma bomba aos pés do Führer no maior atentado contra o ditador.

Em 2009, nos cinemas de todo o mundo Tom Cruise interpreta Claus Schenk von Stauffenberg, oficial alemão em Operação Valquíria.



Operação Valquíria



Era a noite do dia 19 de julho de 1944. Em Berlim, no seu alojamento solitário, o coronel alemão Claus Schenk von Stauffenberg repassava informações e o plano para colocar uma bomba no bunker de Adolph Hitler no dia seguinte.
Von Stauffenberg caminhava nervosamente de um canto ao outro do quarto e revivia a angústia da reunião de dissidentes do alto comando ocorrida há vinte dias. Naquela tarde ficara claro para todos os oficiais que a partir da invasão da Normandia, o Dia D, a guerra estava perdida. Seria apenas uma questão de tempo para que a Alemanha fosse arrasada e humilhada. Os aliados, entre si, acertaram, no tratado de Teerã, que só interessava a rendição incondicional da Alemanha nazista. Desta forma não havia nenhuma possibilidade de acordo de paz em separado. Mas, para evitar que a Alemanha fosse invadida e subjugada pelos bárbaros russos, seria necessário um pacto com os americanos e ingleses. A solução seria a eliminação do Führer e a neutralização da poderosa SS. O grupo resolveu se opor justamente ao lema da SS – Schutzstaff – “Minha honra é a lealdade”.
Von Staffenberg pegara sua caderneta e relera as palavras do General Ludwig Beck "A obediência de um soldado encontra seus limites onde seu conhecimento, sua consciência e sua responsabilidade proíbem-no de obedecer ordens.". O coronel alemão sabia que estas palavras, se lidas por alguém da SS, significariam a própria morte. Deu um sorriso de leve e questionou qual seria a sua condenação após o atentado. Considerou que não precisava se preocupar com anotações e concentrou pensamentos na ação.
A decisão está tomada. Amanhã, bem cedo, pego o avião e pouso por volta das dez horas em Rastenburg. O motorista estará me esperando para percorrer os seis quilômetros de poeira até a Toca do Lobo.
A reunião do alto comando está prevista para meio-dia. Às onze e meia faço um lanche rápido junto com meu ajudante de ordens, tenente von Häften, confirmo o horário da reunião, peço licença para trocar a camisa empoeirada com a ajuda de von Häften. Todos sabem que preciso de ajuda desde que perdi meu braço direito e ainda dois dedos da mão esquerda. Von Häften engatilhará as duas bombas quebrando a cápsula de ácido que dissolve o fio que retém a bomba. O petardo explodirá ente dez e vinte minutos depois. Terei apenas cinco minutos para posicionar a valise sob a mesa e sair. Não há como desarmá-las. Estarei na sala de reuniões e von Häften me chamará para atender um telefonema urgente. Sairemos juntos, passaremos pelo alojamento e pegaremos o carro para ir até a pista de Wilhelmsdorf, de onde voarei para Berlim para ir ao Ministério da Guerra participar do levante contra o governo. Estará realizada a operação Valquíria (3).
Não foi do dia para a noite que mudei de opinião.
Eu me lembro bem, embora já tenham passado dois anos, quando eu estava com Rommel no norte da África. Eu pouco conhecia o glorioso marechal-de-campo Erwin Rommel, a Raposa do Deserto. Ouvíamos as últimas notícias vindas da Alemanha.
“Hoje a polícia prendeu o judeu Davi Stern que convidou crianças a lamber chocolate numa chapa de ferro congelada. As crianças foram atraídas pelo doce e numa armadilha infernal ficaram grudadas pela língua molhada. Essas três inocentes crianças foram mutiladas gratuitamente por um ser desprezível que gargalhava de prazer ao ouvir os gritos do desespero infantil.”
— Schweinehund! – porco imundo – berrou Rommel desligando o rádio. — Maldito Heydrich! É insuportável esta maldita e mentirosa propaganda anti-semita. Este cachorro safado vive criando falsas histórias para colocar os alemães e o mundo contra os judeus.
Fiquei nervoso e balancei a cabeça negativamente, Rommel em vez de ficar chocado com a crueldade do judeu, xingara o número dois da SS. Rommel, um homem frio e calculista, externara sua opinião para mim, um quase desconhecido, e, percebendo meus olhos arregalados, resolveu argumentar para fundamentar sua opinião.
— Sabe Claus, eu acreditei e lutei pela nossa Alemanha durante todo este tempo até que descobri que Goebbels, nosso ilustre ministro da propaganda, que vive alardeando grandes vitórias e conquistas, é um grande mentiroso. Minhas vitórias no deserto, de acordo com a língua de Goebbels, foram estrondosas, foram épicas! Passei a ser um herói imbatível e um orgulho para a raça ariana, quando na verdade também tivemos perdas valorosas. Eu dispunha apenas de equipamento melhor, e, modéstia à parte, um pouco de esperteza. Goebbels exaltava os alemães enquanto a verdadeira função de Heydrich, no serviço secreto, era criar boatos para desestabilizar os inimigos e fazer o mundo acreditar que os judeus eram o demônio na face da terra.
— Mas está provado cientificamente, meu comandante, que somos uma raça superior...
— Haha! Os cientistas foram contratados pelo Führer. Você ainda se lembra da Noite dos Cristais?
— Como alguém pode se esquecer daquele inverno de 38?
— Aposto que você ficou chocado quando aquele moleque judeu assassinou com requintes de crueldade nosso diplomata, não é mesmo?
— Eu e toda a Alemanha.
— O judeu nunca existiu. Foi a SS que eliminou o idiota incompetente metido a diplomata, botou a culpa no judeu, depois colocou um monte de militares à paisana para empurrar a população incentivada pelo rádio. O resultado foi uma centena de judeus mortos, dúzias de sinagogas queimadas e a depredação do comércio judeu em toda Alemanha. — Rommel exibiu um sorriso irônico e continuou — O vidro quebrado das vitrines serviu apenas para criar um nome poético: Noite dos Cristais. — Das war der Anfang, mein Freund. — este foi o começo, meu amigo.
— Eu estou pasmo, meu marechal. Mas como o senhor me explica aquele discurso do Goebbels no ano passado, lá no Palácio dos Esportes? Goebbels perguntou para o povo se queriam a guerra total e catorze mil vozes animadas disseram sim e depois repetiram que sim.
            — Mentiras! O discurso foi uma encenação gravada para transmissão por rádio e para os cinemas. Depois da derrota em Stalingrado, a intenção era entusiasmar os ouvintes e principalmente recuperar o moral dos soldados nas frentes de batalha, por isso, Goebbels referiu-se ao apoio da platéia presente, com uma centena de vaquinhas amestradas infiltradas – ressaltou – como sendo uma amostra da sociedade em seu todo. Todos ficaram empolgados por conta de uma farsa, de uma mentira. Todos mentem, todos mentem. O discurso foi gravado durante a semana e no estádio só houve encenação, teatro. – Alle lügen – Todos mentem.
            Naquele fim de tarde meus olhos foram arregaçados para alguma coisa que eu já enxergara e em que não ousara crer. Em pouco tempo descobri que havia outros oficiais descontentes com a condução do governo da nossa Alemanha.
Jamais passou pela minha cabeça o assassinato do Führer. Jamais passou pela minha cabeça que eu seria o assassino do Führer. No mundo ninguém tem noção do que está acontecendo, nem os alemães, nem os nossos inimigos. A solução deve vir por aqueles que sabem. Pelos meus filhos e pelo futuro da Alemanha, estamos certos. Farei o que deve ser feito.
Olhei par o relógio.
Já são quase dez horas da noite, toda a Alemanha canta junto com Marlene Dietrich a bela canção Lili Marlene antes do encerramento das transmissões radiofônicas.
Von Stauffenberg abre sua caderneta e com um lápis anota:
“Fizemos o exame de consciência diante de Deus e a ação deve se realizar, pois este homem é a encarnação do mal. Queremos uma nova ordem, que faça todos os alemães portadores do Estado e que lhes garanta Direito e Justiça. Se tiver sucesso, serei considerado traidor de minha pátria; se falhar, me considerarei traidor de minha própria consciência.”


As luzes do quartel são apagadas.



1 - A Schutzstaffel – escudo de proteção – ou SS, foi uma organização paramilitar ligada ao partido nazista.
2 - Toca do Lobo – Wolfschanze – o QG de Hitler em Rastenburg, na Prússia Oriental.
3 -  Valquíria, é o título da ópera de Richard Wagner – segunda parte da tetralogia “O Anel do Nibelungo”.



O desfecho do atentado

A reunião foi transferida na última hora do bunker para um barraco de madeira. O bunker por ser de concreto armado teria os efeitos da bomba multiplicados.

A reunião também foi antecipada em meia hora assim, o mutilado von Stauffenberg conseguiu ativar apenas um dos dois explosivos previstos.

A bomba colocada sob a mesa, a meio metro de Hitler, foi afastada por um general que ficou incomodado com a presença da maleta.

A explosão matou quatro e feriu outras onze pessoas, mas não foi o suficiente para matar o ditador.

Von Stauffenberg foi preso e executado no dia seguinte.

Hitler ordenou vingança implacável a Himmler, chefe da SS. Consequentemente foram mortos quase 5.000 pessoas.

O herói Rommel foi convidado a se suicidar

08 fevereiro 2017

Quarto de despejo



Quarto de despejo

Carolina Maria deJesus
Editora Ática
R$ 45,00

198 páginas




O Quarto de despejo é uma edição das anotações diárias de uma moradora da extinta favela do Canindé, à beira do rio Tietê, no centro de São Paulo. Escrito na segunda metade dos anos 1950. É de uma realidade contundente.
Numa época em que os autores brasileiros dificilmente conseguiam edições maiores que dois, três mil exemplares, Carolina Maria de Jesus superou barreiras. Após o lançamento, seguiram-se três edições, com um total de 100 mil exemplares vendidos, tradução para 13 idiomas e vendas em mais de 40 países.
— Por que alguém deve ler Quarto de despejo?
— Poderia ser uma homenagem pelos 40 anos da morte da autora (13 de fevereiro de 1977), mas prefiro dizer que é informação. Aqui você vai saber, pela voz de uma favelada o que é fome. Que os miseráveis brigam, se matam e fazem sexo como animais. Que quando falta o respeito a si mesmo não pode haver respeito ao próximo. Carolina Maria de Jesus se respeitava e respeitava o próximo.
A autora era negra, favelada, mulher, miserável, três vezes mãe solteira, mas guerreira e de coração generoso.
O livro não tem história. Não tem enredo. Não tem começo dramático, não tem final feliz. Nem final tem. É um relato do cotidiano. É um diário. É um manual de sobrevivência no meio do lixo. É um depoimento-denúncia isento de ódio.
— Mas porque afinal fez tanto sucesso?
— É que naquele meio são raros os que sabem ler e escrever. Mais raros ainda os que apesar destas qualidades, têm garra, permanecem sóbrios, usam o papel e a caneta para acusar sem ódio, sobrevivem e conseguem, a despeito de tudo, ainda ter lampejos poéticos, persistência e sorte de ser publicados. Tudo o que se lê à respeito da favela é escrito pelo olhar de quem come três vezes ao dia.
Se você pensa que a sua vida é ruim. Você não sabe de nada.
A personagem principal é a fome e a cada cinco páginas há ao menos uma morte, por fome, doença, aborto ou assassinato.

O primeiro relato é de 15 de julho de 1955, dia do aniversário da filha. Em vez de bolo, velinhas e balões, a menina ganhou um par de sapatos achados no lixo, lavados e remendados pela mãe e autora.
Em 19 de julho anota que não conseguiu armazenar para viver. Resolveu armazenar paciência. E adiante, após relatar uma queixa da vizinha diz “Os meus filhos estão defendendo-me. Vocês são incultas, não podem compreender. Vou escrever um livro referente a favela. Hei de citar tudo que aqui se passa. E tudo que vocês me fazem. Eu quero escrever o livro, e vocês com estas cenas desagradáveis me fornece os argumentos”.
Em 22 de julho Diz que é muito alegre. “Todas manhãs eu canto. Sou como as aves, que cantam apenas ao amanhecer”.
Em 10 de maio, depois de citar políticos opina que “O Brasil precisa ser dirigido por uma pessoa que já passou fome. A fome também é professora.”
No dia 15 de maio encontra a poesia: “O céu já está salpicado de estrelas. Eu que sou exotica gostaria de recortar um pedaço do céu para fazer um vestido.”
Em 27 de maio: “Resolvi tomar uma media e comprar um pão. Que efeito surpreendente faz a comida no nosso organismo! Eu que antes de comer via o céu, as arvores, as aves tudo amarelo, depois que comi, tudo normalizou-se aos meus olhos.”
Em 16 de junho: “Eu adoro a minha pele negra, e o meu cabelo rustico. Eu até acho o cabelo de negro mais iducado do que o cabelo de branco. Porque o cabelo de preto onde põe, fica. É obediente. E o cabelo de branco, é só dar um movimento na cabeça ele já sai do lugar. É indisciplinado. Se é que existe reencarnações, eu quero voltar sempre preta.”
Em 6 de julho, em relação à catação de papel: “Parece que eu vim ao mundo predestinada a catar. Só não cato a felicidade.”
No dia 8 de julho anotou que o filho (de uns nove anos) fora acusado de molestar uma menina de dois anos. E que iriam denunciá-lo ao juizado de menores. Ela mesmo tomou a iniciativa de ir ao Juizado para interná-lo “porque agora tudo que aparecer de mal vão dizer que foi ele.”
No mesmo dia anota que o doutor do juizado “disse-me que se os meus filhos fossem para o Abrigo que ia sair ladrões. Fiquei horrorizada ouvindo um Juiz dizer isto.”
Em 16 de agosto: “O custo de vida faz o operario perder a simpatia pela democracia.”
No dia 18 de julho do ano seguinte reflete: “Temos só um jeito de nascer e muitos de morrer.”
É lógico que selecionei o lado poético.
Para nós, moradores de casa de alvenaria, a pobreza, a fome, a morte são invisíveis como os miseráveis.
 
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